A estreia de
Portugal no Mundial foi pobre – e, vendo o que (não) se jogou, sê-lo-ia sempre,
mesmo que a seleção tivesse acabado por fazer um segundo golo e ganho à RD
Congo. Há múltiplas razões a justificar a má exibição da equipa, as redes
sociais fervem de excitação nos debates entre Ronaldistas, que
culpam tudo o resto, e os anti-Ronaldo, que veem nele a raiz de todos os males,
mas a principal razão do fracasso da seleção continua a ser profundamente
ideológica. Como todas as equipas, Portugal tem pontos fortes e pontos fracos,
e o problema é que cristalizou numa ideia que não faz sobressair os primeiros
nem mascara os segundos.
O resultado é
uma equipa de circulação estéril, que faz o dia a qualquer Opta Joe que se
digne a olhar para os dados com alguma atenção. Vejamos, primeiro, o que é
indiscutível, porque é factual – e depois já vamos às possíveis explicações,
subjetivas, ainda que todos os opinadores inflamados continuem a vendê-las como
“a verdade”. Ontem, Portugal completou 703 passes, segundo valor mais alto da
primeira jornada entre todas as seleções – só a Espanha fez mais, 722, no jogo
com Cabo Verde. A questão é que a Espanha rematou 27 vezes, o que, basta fazer
as contas, equivale a um remate a cada 26,7 passes. Daí o destaque dado a
Vozinha, o guarda-redes cabo-verdiano, e o facto de ninguém ser capaz sequer de
se lembrar do nome do guarda-redes da RD Congo. Pudera: Mpasi, é assim que ele
se chama, não fez uma defesa no jogo todo.
Portugal fez
sete remates, isto é, um a cada 100,4 passes. A segunda equipa com mais passes
certos na primeira jornada do Mundial foi a sexta que menos rematou entre as 48
participantes. Atrás de nós, na incapacidade para ver a baliza, só ficaram a
África do Sul, o Senegal, a Tunísia, Cabo Verde e o Qatar – e mesmo estes
quatro só por um remate, que fizeram seis. Isto é o mesmo que dizer que a
circulação de bola de Portugal foi, de longe, a mais estéril de todo o Mundial.
A África do Sul, segunda equipa mais desértica no ataque, fez um remate a cada
84 passes, mas jogou muito tempo em inferioridade numérica. Depois, só a
Argélia (76,3) e o Senegal (68,8) ficaram acima dos 50 passes por finalização.
No seu discurso
público, como sempre capaz de ver flores e paisagens verdejantes onde só há
pedras, Roberto Martínez conseguiu elogiar a performance da equipa e, hábil,
foi mesmo ao Mundial do Qatar, recorrendo ao exemplo da Argentina, que perdeu
na estreia, contra a Arábia Saudita, e mesmo assim foi campeã mundial. Tem
razão numa coisa: o Mundial não se ganha no primeiro jogo, nem sequer na fase
de grupos. O Mundial são oito jogos e quem o ganha é quem cresce durante a
competição.
Mas para o
ganhar, em 2022, a Argentina fez uma coisa que falta perceber se Martínez
estará disponível para fazer. Scaloni refletiu em cima da estreia e mudou,
chamando à equipa Enzo Fernández e Julián Álvarez, por exemplo. Faltará a
Martínez fazer a mesma coisa. Para cumprir o lema que adaptou de Pedro
Abrunhosa e “fazer o que ainda não foi feito”, Portugal precisa de recuar até
António Variações e “mudar de vida”. Porque este jogo, como a vida, “não é nem
deve ser como um castigo” que a seleção tem de viver.
(Publicado por António Tadeia, Substack, 18.6.26)

Portugal jogou com um avançado _ Neto_ todos os outros são grandes jogadores. Depois entraram Conceição e Rafael leão e Gonçalo Ramos para jogarem uns minutos.A culpa é toda do seleccionador. A equipa não teve um passe em profundidade. Circular a bola não dá para atacar a baliza
ResponderEliminarLuís Moreira
EliminarA seleção jogou mal, tenho dificuldade em escolher um jogador que tenha estado bem. Um pouco melhor, talvez João Neves e Conceição. Apenas. De acordo, circular a bola daquela maneira não dá para atacar a baliza.
So o Luis Moreira
ResponderEliminarTendo a concordar com a análise. Não culpo tanto o Ronaldo como muita gente faz, pois as bolas não lhe chegam com qualidade nenhuma. Para mim, o pior foi Bruno Fernandes que foi um jogador totalmente ineficaz no seu papel de transportar jogo. Foram demasiados passes para o lado e para trás.
ResponderEliminarMike Portugal
EliminarA seleção não teve um fio de jogo e teve dificuldades surpreendentes quando o Congo começou a subir as linhas. Mais do que uma questão individual, deste ou daquele, foi um problema coletivo.
Foi tão mau o que vi, que nem apetece falar do jogo. Aliás do pouco que tenho visto, não guardo nada de bom. Sou do tempo dos mundiais com 16 seleções e depois com 24, quase todos os jogos eram dignos de serem vistos, com esta "carrada" de seleções a pobreza exibicional alarga-se, até as melhores seleções parecem contagiadas.
ResponderEliminarCaro Luís Carvalho
EliminarTambém sou do tempo dos mundiais com 16 ou 24 seleções e também de jogadores com muito menos jogos disputados ao longo da época. Isto não justifica o facto do jogo de ontem ter sido tão mau, uma desilusão e motivo de preocupação.