A construção do Estádio de Alvalade em 1956: uma história de amor

A construção do Estádio José Alvalade em 1956 constituiu uma invulgar história de amor. As peripécias relacionadas com a construção, o envolvimento dos sportinguistas e a festa que culminou na sua inauguração fazem-me sempre trautear um conhecido fado que Carlos Ramos cantava por aqueles dias: “O amor é louco / não façam pouco / desta loucura”!

De facto, a construção do nosso Estádio foi um caso sério próprio de loucos apaixonados. Houve quem pagasse cinco escudos (ou dez, ou vinte, conforme cada um) para pegar numa picareta e ajudar a demolir o primeiro Estádio José Alvalade (o antigo Campo do Lumiar) e, em contrapartida, receber o emblema “Leão com picareta” comprovativo da acção realizada. Muitos sócios entregaram um dia de salário ao clube. A “Campanha do Cimento” valeu muitas e muitas toneladas. Organizaram-se festas, excursões e uma Grande Gala no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Um conhecido arquitecto sportinguista, Anselmo Fernández, não aceitou ser remunerado pelo projecto de construção. Coisa de loucos apaixonados, obviamente.

Como é sabido, mesmo na paixão há um tempo e um espaço para o planeamento. A Assembleia Geral Ordinária de 29 de Janeiro de 1951 do Sporting aprovou o Plano Financeiro das Obras do Estádio José Alvalade que estabeleceu as directrizes organizativas e financeiras. Era evidente que para se construir a obra com que todos os sportinguistas sonhavam teria de haver um forte contributo dos associados, daí o Plano Financeiro ter proposto aos sócios a aquisição de títulos de subscrição.

O jornal Sporting de 10 de Fevereiro de 1951 refere que os adeptos rivais designaram os títulos de subscrição por “LAGARTOS”, expressão depreciativa para os leões. Num golpe de mestre, o jornal proclamou que “cura-se a ferida com o pelo do mesmo cão, como é vulgar dizer-se”. Vai daí, determinou que “doravante, adopta-se a designação de ´LAGARTOS` para mais facilmente a propaganda atingir os seus objectivos”. Nem mais, uma verdadeira acção de marketing muito avant la lettre!

As primeiras vendas foram um sucesso e uma semana depois o jornal voltava à carga com palavras optimistas: “felicitamos todos os `lagartos´ por preferirem os `LAGARTOS´. Se cada `leão´ adquirir um ou mais `LAGARTOS´ então o êxito do Plano Financeiro será completo.” Foram criadas subcomissões em fábricas, empresas e bairros de Lisboa e nas localidades em redor para aumentar as vendas.

A verdade é que nos dias de jogo do Clube, nas proximidades do campo de futebol, gritava-se a plenos pulmões “comprem o lagarto” e “olhó lagartinho”, adquirindo a expressão lagarto outro significado aos olhos apaixonados dos leões. Entre os sportinguistas de há 40 ou 50 anos era normal chamarem-se de “lagartos” entre si. 

A construção do nosso Estádio revelou o carácter interclassista do Sporting Clube de Portugal, que longe das prebendas do regime político de então, para conseguir erigir a obra que sonhava teve de socorrer-se aos seus associados para que contribuíssem financeiramente de acordo com as possibilidades de cada um. Apesar de todo o esforço e dedicação, constituiu um tremendo encargo financeiro que viria a reflectir-se nas contas do clube nos anos seguintes.

O Estádio José Alvalade foi inaugurado no dia 10 de Junho de 1956.

 

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