Nos últimos seis
anos, desde 2020 quando começou efetivamente a mudança leonina a dar resultados
— e neles brilham três campeonatos nacionais, algo nunca visto em 70 anos —,
que o velho Sporting se foi apagando, aos poucos. Mas há resquícios
desse leão deprimente que ainda não desapareceram e seria difícil que
desaparecessem assim tão depressa. É um processo. E a derrota na final da Taça
de Portugal é em si mesmo exemplo disso como o são algumas reações no
pós-desastre que se tomadas à letra seriam ainda mais desastrosas, como os 40
anos anteriores a 2020 bem o mostram.
Não foi a
primeira vez que o Sporting perdeu com clube de escalão inferior — a
época áurea de Ruben Amorim também teve exemplo… — e certamente não será a
última. Previsivelmente não voltará a acontecer numa final da Taça de
Portugal e porque num jogo decisivo maior o grau do ridículo, só atenuado
pela atitude e competência do Torreense, dos jogadores ao treinador e
passando pelo staff técnico e dirigente, que valorizou a vitória além do
demérito leonino. Mas o que se viu em campo no Jamor por parte dos leões foi um
dos mais vincados resquícios de outros tempos.
Foi a atitude,
foi o não meter o pé à bola e no acelerador, talvez porque se aproxima o
Mundial para uns, o mercado para outros e as duas coisas para alguns desses,
que levou ao que se viu. Mas foi sobretudo uma falta de comprometimento que fez
lembrar outro Sporting e uma arrogância que podia ser dos campeões,
mas que pareceu mais de um grande decadente do passado do que de um vencedor em
soberba. Um resquício dum Sporting que os sportinguistas querem meter
atrás das costas.
Outro resquício
foi o que se viu e ouviu de alguns que têm na demissão do treinador o remédio
santo para tudo. Bem sei que há o exemplo de Roger Schmidt e de Bruno Lage em
dois passados recentes na Luz que foram usados como comparação com Rui Borges.
Mas não faz sentido algum despedir o transmontano agora, numa altura em que se
sente o projeto em andamento, o fim de ciclo por todos percebido e admitido a
ser assumido e trabalhado e até elogiado neste maio de mercado antecipado.
O fim duma época
em Alvalade era previsível, o cansaço de muitos jogadores à procura de outros
desafios natural e por isso se começar a trabalhar tão cedo. E isso só pode ser
feito com o treinador envolvido. Começar a mudança e mudar a meio do processo seria
passo atrás e quem defendeu a demissão e pôs em causa a renovação de Rui Borges
foram os mesmo que dias antes elogiavam a estabilidade leonina por contraponto
com a indefinição e trapalhada que se vive na Luz. É preciso pouco tempo para
dar meia volta e volta e meia na opinião...
Agora também é
preciso Rui Borges mudar algumas coisas, desde logo a forma como se assume ao
grupo, como pega nas rédeas duma equipa grande que vai agora ser construída a
seu gosto. Se entra sobre brasas na temporada? Entra. Mas sobre brasas está
sempre a maioria dos treinadores dos grandes, desde que não se chamem, por
exemplo, José Mourinho ou Ruben Amorim.
Borges não tem
os dons comunicacionais desses, que lhes valem compreensão extra na hora do
aperto (é preciso não esquecer o 4.º lugar de 2022/2023…), mas atirá-lo para
fora nesta altura não seria só um resquício do velho Sporting, seria um
dos piores vícios dele e com os resultados que todos estão bem lembrados.
(Texto de Nuno Raposo, A Bola)

Rui Borges foi eleito o melhor treinador da Liga na época de 2024/25.
ResponderEliminarNão foi assim há muito tempo.