O plano secreto de Rui Borges que salvou a Champions (Hugo Forte, jornal A Bola)

Dia 29 de abril, mais ou menos pelas dez da noite. O Sporting consente dois golos do Tondela já no período de compensação, após ter estado em vantagem por 2-0, e descola do Benfica na luta pelo segundo lugar. Fica assim, após o acerto de calendário — o jogo era em atraso relativo à 26.ª jornada —, a dois pontos do eterno rival. Alvalade entra em erupção de descontentamento. Um dos capitães, Daniel Bragança, diz que o grupo tem de fazer mais e melhor, mas, dois dias depois, Frederico Varandas dá uma prova de confiança a Rui Borges, renovando-lhe o contrato até 2028 (que pode ser estendido por mais uma temporada por opção leonina).

Ficava o treinador com a missão de reabilitar um plantel com o corpo esgotado por força da cadência louca de jogos — sete só em abril, com adversários como Arsenal, Benfica e Porto — e com a alma quase abalada, porque uma das poucas boas notícias que tinham sido concretizadas fora a passagem à final da Taça de Portugal. Rui Borges pegou no caderno de encargos que lhe foi entregue para, pelo menos, recuperar o segundo posto, que dá acesso ao prestígio e aos milhões da Champions, e meteu mãos à obra.

E usou algumas estratégias. Para já, como não é adepto de terapias de choque, transmitiu ainda maior proximidade aos jogadores, demonstrando confiança extrema no que tinham feito até aí e dando como exemplo o desempenho na Champions, que teve dois encontros para ficarem nos anais das boas memórias leoninas: a vitória por 2-1 diante do campeão europeu PSG e a reviravolta épica da eliminatória frente ao Bodo/Glimt, revertendo uma desvantagem de 0-3 na Noruega para um estrondoso 5-0 em Alvalade.

O técnico considerava, naquela fase, que o confronto, a desconfiança e o chicote eram tudo aquilo de que o grupo não merecia nem precisava. Rui Borges repete até à infinitude nas conferências de imprensa que é «positivo», e foi nesse traço que julga distintivo que se apoiou. Procurou apelar a um sentimento gregário, mas também ao brio dos atletas, lançando-lhes uma missão: terminar a época com vitórias e demonstrar que os resultados menos conseguidos foram um mero acidente de percurso num caminho longo e, também, fruto do muito desgaste acumulado.

Três jogos depois da turbulência, eis a bonança. O Sporting deu respostas cabais com goleadas ou resultados confortáveis: V. Guimarães (5-1), Rio Ave (4-1) e Gil Vicente (3-0). Como, por este período, o Benfica começou a derrapar, o emblema verde e branco obteve o segundo lugar e estará de novo na Liga dos Campeões. Se de forma direta ou por via de pré-eliminatórias, adiante se verá, dependente dos ingleses do Aston Villa — terão de vencer a Liga Europa e chegar aos lugares de acesso direto à prova milionária, ficando nos quatro primeiros da Premier League, abrindo assim uma vaga para o clube de Alvalade, que muito agradeceria esta cortesia dos villans.

Texto de Hugo Forte, jornal A Bola

 

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